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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

After Life: Vocês vão ter que me engolir | Comédia com tom de melancolia

Estamos todos morrendo. Ser saudável é apenas uma forma de morrer mais devagar.

Acho que é meio inevitável que em algum momento da vida a gente pense sobre a morte, alguns vão negar sua existência até que ela visite o vizinho; outros vão abraçá-la como a única certeza da vida e há também aqueles que, diante dela, escolhem "sobreviver" do jeito que conseguem — com sarcasmo, silêncio e uma "honestidade" quase cruel, este é Tony.

Vamos falar sobre After Life.



Título: After Life
Temporada: 3
Formato: Série / 18 episódios
Ano: 2019
Dirigido por: Ricky Gervais
Duração: 25/31 minutos
País de Origem: Reino unido
Gênero: Humor negro

After Life é uma série criada e protagonizada por Ricky Gervais que acompanha Tony, um jornalista lidando com a morte da esposa e as consequências do luto em sua vida pessoal e social. A narrativa se desenvolve a partir de seu cotidiano após a perda, explorando as relações, os conflitos e o impacto emocional dessa ausência.

Falando sobre

Eu comecei a assistir After Life de maneira despretensiosa. A gente estava procurando uma série daquelas que se vê antes de dormir,  sem a intenção de mergulhar em algo profundo, apenas com o desejo de finalizar o dia com uma gotinha de prazer cinéfilo, logo percebi que se essa era a intenção fizemos uma péssima escolha.

Não tenha conclusões precipitadas, eu gostei da série, acontece que ela tem tantas camadas que ao invés de dormir depois de assistir eu costumava ficar horas pensando sobre.

E confesso pra você que, embora o humor negro seja o responsável por dar o tom da trama eu pouco ri, vi vários relatos de pessoas que pausaram a série pra cair na gargalhada, enquanto eu, apenas lembro de chorar, chorar e chorar, será se tem algum problema comigo? Ou isso é reflexo do meu lado melancólico?

De repente a série bata mais forte em quem vivenciou um profundo período de luto, ou enfrentou momentos de intensa apatia, assim como Tony que não tinha outro objetivo de vida a não ser desviver.


ATENÇÃO ESTE TRECHO TEM SPOILER

Tony é um personagem humano, mergulhado na dor e nas emoções mais sombrias que um ser humano pode experimentar. Mas, se pararmos para analisar alguns pontos de sua história, percebemos que a morte de Lisa foi apenas o estopim para uma crise existencial que ele já carregava.

Em um dado momento, nosso viúvo raivoso revela que, antes de encontrar sua esposa, era apenas alguém sem grandes ambições, vivendo uma vida medíocre e sem sentido. Levando isso em consideração, conseguimos compreender o tamanho do impacto da morte de Lisa: ela era quem dava sentido à vida dele. Ele não perdeu apenas a esposa, mas também parte de si mesmo — a melhor parte — e, com o luto, foi obrigado a olhar novamente para si.


Claro que isso era uma tarefa terrível para ele, assim como é para muitos de nós. E é aqui que a série cumpre um papel importantíssimo: espelhar nossas dores, fazendo com que nos reconheçamos neste homem tão amargo e irritadiço.

Na verdade, Tony amava o que Lisa despertava nele: a vontade de viver, a alegria, o entusiasmo. Isso não quer dizer que ele não a amava; significa, talvez, que ele era alguém que se amava pouco, e que grande parte da sua identidade e motivação vinha do que ela fazia florescer nele.

Quando Lisa morre, o que resta é a presença de poucos amigos, do cunhado e de alguns outros personagens que, de maneira quase cômica, insistem em cutucar a ferida de Tony — não por crueldade, mas por simplesmente continuarem existindo ao redor dele.

Julian, o entregador de jornais, foi um dos personagens que mais me chamou atenção. Ele compartilhava da mesma dor intensa que Tony sentia. Em um de seus últimos diálogos, Julian expressa, de forma profundamente emotiva, a sensação de que ninguém se importaria caso ele morresse. E quando sua morte acontece, com Tony envolvido nesse desfecho, a série escancara uma verdade fria e desconfortável: talvez ninguém ligasse mesmo.

Outro personagem tão marcante quanto irritante é Brian. O pobre homem foi abandonado pela esposa e não conseguiu superar a traição. De certa forma, cada personagem parece refletir uma camada das emoções de Tony; todos se espelham e se complementam, criando um universo onde a dor, a frustração e a busca por sentido se entrelaçam.


Até mesmo aquele que deveria trazer lucidez a toda trama, o tal do psiquiatra, era mais pirado que todo o elenco junto (esse foi um personagem do qual ri, mas por vergonha alheia), achei um máximo a construção dele, mas por que será que ele era tão maluco assim? Com certeza Freud explica rsrs.

No fim, After Life remexe com as sombras humanas, isso é fato. Ela mostra os malefícios de conteúdos reprimidos, o vazio que a gente tenta preencher com acúmulo, trabalho ou aprovação alheia, e a constante sensação de que precisamos agradar para ser aceitos. Mostra como é difícil encontrar um caminho na vida quando parece que não existe mapa ou receita, e como cada pequena perda, cada frustração, cada ferida, vai se acumulando até nos obrigar a olhar para dentro.

E é justamente aí que a série acerta em cheio: ela nos confronta com nossas próprias dores enquanto nos faz rir, chorar e refletir. Tony é a personificação desse caos humano, mas também nos lembra que, mesmo diante do vazio, da solidão e do desespero, ainda existem conexões, pequenas alegrias e momentos que valem a pena. After Life não oferece respostas fáceis; ela entrega algo muito mais raro: a certeza de que, mesmo quebrados, podemos continuar existindo — e, aos poucos, encontrar pedaços de nós mesmos que valem a pena serem resgatados.

No fim das contas, a série não é só sobre perder alguém que amamos. É sobre se perder, se encontrar e perceber que viver é, acima de tudo, se permitir sentir tudo — a dor, a raiva, a melancolia, mas também o riso, a leveza e o amor que ainda existe, escondido nos cantos mais improváveis da vida. E isso, meu amigo, é épico.

Assim é a vida humana.

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